domingo , 21 janeiro 2018
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Direito Agrário

Mudanças climáticas: Pecuária no Bioma Pampa emite menos metano do que divulgado

Os primeiros resultados da pesquisa que está avaliando as emissões de metano por bovinos de corte no bioma Pampa demonstram que os níveis são bem inferiores do que aqueles geralmente divulgados por organismos internacionais. Durante um ano, a Embrapa Pecuária Sul mediu as emissões do gás em novilhos da raça Hereford submetidos a diferentes níveis de intensificação em pastagens naturais do Pampa. Segundo os resultados preliminares, as emissões de metano foram até 43% menores do que estimativas feitas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para a pecuária brasileira.
As avaliações fazem parte de um projeto de pesquisa que está monitorando o balanço do carbono na pecuária brasileira. A Rede de Pesquisa Pecus, liderada pela Embrapa, está avaliando a dinâmica de emissão dos gases de efeito estufa (GEE) e a retenção do carbono pela pecuária nos seis biomas brasileiros, entre eles o Pampa. Os resultados estão baseados em análises de dados coletados no ano de 2013 em animais entre dez meses e dois anos de idade, criados nos campos experimentais da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé (RS).
Para a pesquisa, os animais permaneceram em campo nativo com ajuste de carga para 12% PV (12 quilos de pasto seco para cada 100 quilos de peso vivo animal), com três níveis de intensidade de utilização: campo natural, campo natural fertilizado e campo natural fertilizado e sobressemeado com azevém e trevo-vermelho. Nesse último nível é que foram registradas as menores emissões de metano por animal, 31,6 kg/ano. Já no campo natural fertilizado, a emissão foi de 42,8 kg/ano e no campo natural foi de 46,35 kg/ano.
“É importante ressaltar que as estimativas do IPCC são de uma emissão de 56 kg/ano de metano por animal dessa mesma categoria no Brasil. Ou seja, os resultados mostram que a emissão de metano no bioma Pampa é bem inferior por animal”, afirma a pesquisadora Cristina Genro, coordenadora do Projeto Pecus no bioma Pampa. Segundo a cientista, se for multiplicada essa diferença por milhões de cabeças de bovinos criadas no Pampa, o montante de metano emitido pelos animais ficaria extremamente menor que aquele preconizado pelo organismo internacional.
No levantamento, foram avaliados 27 animais da raça Hereford que, no início da pesquisa, tinham peso médio de 180 kg. Alimentados somente a pasto, os animais apresentaram um ganho médio diário por cabeça de 0,38 kg naqueles que permaneceram no campo nativo sem tratamento; 0,62 kg no campo natural fertilizado e 0,72 kg no campo natural fertilizado e sobressemeado. O consumo alimentar médio dos animais foi maior no inverno, quando foram ingeridos 6,13 kg de matéria seca/dia e na primavera com um consumo de 5,25 kg de matéria seca/dia. “Considerando que os animais só se alimentaram de pasto, sem nenhum tipo de suplementação, o ganho médio diário está dentro dos padrões para este tipo sistema. Isso quer dizer que reproduzimos o sistema de produção preponderante na região, com um manejo de pasto adequado, o que faz com que a emissão de metano também deva refletir a realidade da pecuária na região”, enfatiza Cristina Genro.
Para a aferição da emissão de metano, os animais permaneceram durante cinco dias com buçais presos próximos às narinas e à boca, absorvendo a eructação do gás pelos bovinos. As amostragens recolhidas, uma a cada estação do ano, são enviadas para um laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, que faz a medição do gás emitido. Segundo a pesquisadora Cristina Genro, os protocolos de coleta de gases e também de análise, utilizados no projeto, são reconhecidos internacionalmente e recomendados pelo IPCC para pesquisas na área. Uma nova análise está sendo realizada, agora com dados recolhidos dos animais em 2014.
Balanço do carbono 
A Rede de Pesquisa Pecus está realizando um estudo inédito no País, com o objetivo de avaliar o real balanço de carbono na pecuária praticada no Brasil. Para tanto, são efetuadas medições das emissões e sequestro de carbono em animais, pelo solo e pelas plantas (pastagens). Além do Bioma Pampa, o levantamento está sendo realizado nos demais biomas brasileiros: Caatinga, Cerrado, Pantanal, Amazônia e Mata Atlântica. Em cada bioma, são considerados os sistemas de produção adotados, e a pesquisa visa também  apresentar recomendações de manejo para a mitigação da emissão dos GEE.
No caso do bioma Pampa, as avaliações estão sendo realizadas nos campos experimentais da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé (RS), e na Estação Experimental da Faculdade de Agronomia da UFGRS, em Eldorado do Sul (RS). Com os dados computados, será possível avaliar de fato qual o papel da pecuária na emissão do GEE e qual a verdadeira contribuição da atividade no processo de mudanças climáticas. “Ouvimos muito que a pecuária brasileira é uma das grandes fontes de emissão dos GEE. Porém, ainda não existiam dados concretos que avaliassem sua real participação nesse processo”, avalia Cristina Genro.
Bom manejo é essencial
De acordo com a pesquisadora Cristina Genro, o manejo adequado dos rebanhos é imprescindível para que se aumente a produtividade da pecuária com sustentabilidade. A principal recomendação é quanto ao ajuste de carga animal em relação à disponibilidade de alimentos. O cálculo utilizado no bioma Pampa é de que se disponibilize pelo menos 12 kg de matéria seca de forragem por cada 100 kg de peso vivo de animal na área onde está o rebanho. Uma forma mais fácil para o produtor avaliar a quantidade ideal de alimentos é manter a altura da pastagem entre 11 e 15 centímetros.
Com um manejo adequado, aliado ao melhoramento genético de animais, hoje é possível abater bovinos com até 18 meses de idade. A diminuição do período entre o nascimento e o abate, a partir do aumento na eficiência alimentar, também contribui para a diminuição na emissão dos GEE, uma vez que os animais permanecem menos tempo no campo.
Uma das peculiaridades do Pampa está em ser  um bioma formado em boa parte por campos, ou seja, com vocação natural para a pecuária. Tanto que, desde a ocupação pelos descendentes europeus na região, a criação de animais sempre esteve presente entre as principais atividades econômicas. Diversos estudos sobre a composição florística dos campos naturais do Pampa já identificaram mais de 400 espécies de gramíneas e 150 de leguminosas, sendo a grande maioria com potencial forrageiro.
Exportações de carne bovina
O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, sendo que entre janeiro e agosto deste ano foram comercializadas mais de 885 mil toneladas para diferentes destinos, o que representa a entrada de cerca 3,8 bilhões de dólares. Com um rebanho superior a 210 milhões de cabeças, em torno de 20% da produção nacional de carnes é destinada ao mercado externo. De acordo o diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Fernando Sampaio, não há barreiras comerciais entre países em relação a questões ambientais ou de emissão de GEE. “Há grupos privados importadores que exigem garantia da procedência da carne, avaliando questões socioambientais, como, por exemplo, se ocorreu desmatamento para a produção, além de questões trabalhistas”, afirma.
Segundo o executivo da Abiec, a perspectiva é que esse tipo de exigência do mercado aumente e uma das características que será cobrada é a menor emissão de GEE na produção de carne. “Há diversos estudos no País, como o da Embrapa, que dão indícios que os índices de emissão são menores que os divulgados. Precisamos divulgar esses estudos em publicações internacionais para melhorarmos a imagem da nossa pecuária no mundo”. Há mais de dez anos, a Abiec realiza trabalhos de promoção da carne bovina brasileira pelo mundo, mostrando que parte da nossa produção é feita com sustentabilidade e os estudos da Embrapa tem comprovado que a pecuária do Pampa contribui para esta imagem positiva.
Notícia e imagem divulgada pela Embrapa em 24/11/15 (Foto: Claudia Gomes).

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